27/06/2009

A SALVO ENTRE QUATRO PAREDES?

Moro sozinha e sempre que chego à minha casa é como se chegasse em meu refúgio sagrado. Onde não devo satisfações pra NINGUÉM!

Se estiver chateada posso me debulhar em lágrimas sem ter que explicar nada pra quem quer que seja.

Se estiver feliz, eufórica, posso pular feito louca.

E aqui também me divirto “toute seule”! Abro um vinho, coloco o volume no último e danço, cantarolo, faço caras e bocas na frente do espelho da sala...Extravaso!!!

Cada vez mais, sozinha!Solitária, não!!!

Estou aprendendo a amar mais e mais e mais a minha companhia. E se fico meio de saco cheio dela, peço socorro aos livros, dvds, apelo pros programas trash da tv (sim, confesso, estou assistindo A FAZENDA, e ainda por cima é na emissora concorrente, kk!!) ...e aos meus gatos!! Ah, meus amorecos!!!

Sartre é um persa himalaio gorducho e sem vergonha, que adora o aspirador de pó. É só me ver com o aparelho ligado para se jogar na frente com o barrigão virado pra cima!

Blanche, minha angorá. Branca como um tufo de algodão, meiga, e muito arisca com desconhecidos...vive atrás de mim pela casa, tropeçando nas minhas pernas. Acha que nasceu cachorro: tem verdadeira fixação por embalagens de incenso, abocanha e carrega pra mim na cama, até eu jogar longe e ela trazer de volta infindáveis vezes!!!

Elegeu a escrivaninha seu canto preferido no apartamento...fácil, fácil confundi-la com um bibelô, enfeitando uma das prateleiras.

Dia destes, depois de meses sem uma visita ao veterinário, despachei os dois pro banho e uma boa tosa... Foi quando tive a noção exata do espaço tão gostoso que eles preenchem na minha vida. Andava pela casa e me dava um aperto no peito de não vê-los ali comigo, disputando espaço na cadeira do escritório, ou dando patadas no cursor do mouse enquanto eu navego ...e que diabos pra fazer as horas passarem.

Com eles a casa ganha vida e parece estar sempre cheia! Presença, barulho, objetos quebrados, bagunça pra arrumar, pêlos para me sufocar!!E sobretudo companhia pra CONVERSAR!

É...o caso é grave! Mas só me atentei pro detalhe outro dia, quando cheguei em casa. Destranquei a porta e a deixei aberta enquanto tirava compras do elevador. Foi quando ouvi , vindo do apartamento vizinho, uma seqüência de 'ganidos' estranhos...Parei, disfarcei, dei uma “espichada” no ouvido para tentar entender o que acontecia.

Fiquei roxa de vergonha...entrei rapidinho em casa e fechei a porta correndo...

Do lado de lá da parede, meu “simpático” vizinho adolescente remedava:

 “Olaaá meu amooooor, como vãos os monstriiiiinhos da mamãe!! Vem cá meu gorduuuucho fooooofo, gatuuuxo lindo da mamis! Ah, já estavam com fome né...???”....e caiu numa gargalhada grotesca, acrescentando pro amigo:  “Espera que daqui a pouco ela começa. É sempre assim quando chega em casa!!!”

E eu que me julgava segura e a salvo em meu império de quatro cômodos... mas as tais paredes, ah...as danadas tem uns ouvidos enoormes!!!!

22:12 Écrit par Observatoire a dans Général | Lien permanent | Commentaires (3) |  Facebook |

13/06/2009

PARA REFLETIR...

Por não estarem distraídos

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria, peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. "

Clarice Lispector

 

 

Ceará 266

 

Ceará / 2008


21:59 Écrit par Observatoire a dans Général | Lien permanent | Commentaires (3) |  Facebook |

03/06/2009

DAS TANTAS FAMÍLIAS QUE TEMOS...

Tem aqueles dias em que a carência é tão grande, o desamparo tão amargo que as coisas mais simples consolam...foi assim outra noite...voltando do trabalho, já bem tarde, o friozinho completamente atípico para o cerrado goiano...e quando abro o portão eltrônico do prédio para entrar com o carro na garagem vejo o olhar sempre sereno e simpático do seu Raimundo, porteiro da noite, com o sorriso mais meigo do mundo, zelando pela minha entrada e me dando as boas vindas em casa...esquentou o coração!!!

Mudou o clima daquele final de jornada que se anunciava triste e monótono...

Foi então que pensei em como pessoas como seu Raimundo passam a fazer parte de nossas vidas tal como uma família. Ele que por pelo menos quatro vezes no meio da madrugada foi me “ socorrer” no apartamento quando eu encontrava lagartixas dentro de casa (affff...pago cada mico com esses monstrinhos..tá bom, não precisam me dizer, mais uma vez, que elas são inofensivas e comem mosquitinhos...argh...é fobia mesmo, medo irracional daquilo que não oferece perigo real....)

Também é seu Raimundo quem cuida do meu sono quando os vizinhos barulhentos insistem em desrespeitar as regras básicas de boa convivência dentro do condomínio. Toma minhas dores, faz advertências e sempre dá um jeito de acabar com a bagunça.

Às vezes passo apuros com seu Raimundo, já pra lá dos sessenta anos tem dificuldades em se manter acordado por toda a madrugada e quantas vezes o surpreendi dormindo em pé na guarita, dando pescoções, tadinho, e eu trancada do lado de fora, ahaha!!

E ele tem veia artística! Pra afugentar o sono, não é raro encontrá-lo a cantarolar canções evangélicas e desta forma espantar os seus males ( e por tabela, os nossos  também!)

Obrigada por estar sempre ali, seu Raimundo!

 

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