28/10/2008

DIFERENTES DIMENSÕES DA DOR...

 

Na semana passada um rapaz de 17 anos teve os sonhos, o futuro e a vida interrompidos depois de levar um tiro dentro da escola. Mais um caso para engrossar as estatísticas de violência no Brasil. O autor do disparo foi um colega de sala de aula da vítima. Um segurança de 23 anos que ia para a escola armado. Uma discussão banal foi o estopim. Um grande amigo de infância da vítima se desentendeu com o segurança e Kérsio, ao tentar colocar um fim na briga, foi o alvo de um tiro certeiro no peito...

Ponto final nos planos de ficar noivo da namorada com quem estava há dois anos...Ponto final nos planos de se formar...e quantos outros planos...

Ontem, amigos e parentes fizeram uma homenagem ao estudante...uma partida de futebol na quadra freqüentada pela vítima uma vez por semana.

A imprensa esteve por lá. Eu estive por lá...

São encontros nem sempre pacíficos estes entre repórteres e pessoas que perderam alguém querido. Quase sempre chegamos na hora da dor, da descoberta da perda, da incompreensão de uma brutalidade sem explicação. Nesses momentos faço questão de respeitar a vontade da família. Mantemos uma distância que permite relatar o fato invadindo o mínimo possível. É possível? Quase nunca...

Mas em outras ocasiões, é na imprensa que a família amplifica a voz, encontra um meio de gritar ao mundo sua dor, indignação e clamar justiça.

Ontem à noite, seu Manoel chegou perto para conversar.

Longe de câmeras e do microfone. Ele queria apenas me falar um pouco da sua dor...lembrar os bons momentos com o filho.

Entre soluços, contou como foi duro retirar a aliança de compromisso do dedo do filho, já morto no chão da escola. Chorar a perda de um amigo, mais que um filho. Detalhes que só um pai conhece...

Em momentos como este todas as nossas dores parecem ter suas dimensões reduzidas...

E pra fechar, aquele pai quis também agradecer nossa presença...

Me deu um nó na garganta. Uma vontade de sumir, desaparecer dali.

Como assim, nos agradecer? Estamos ali fazendo nosso trabalho. Cumprindo uma obrigação. Mas vejam que o coração de um pai não percebe estas coisas e ainda guarda espaço para a gratidão. Grato por ser ouvido em sua dor...por desabafar seu sofrimento...morri um pouco ali entre os parentes...não deveria ser assim. Somos profissionais e devemos estar imunes aos fatos.

Devemos?

Ainda não consigo...

 

14:31 Écrit par Observatoire a dans Général | Lien permanent | Commentaires (1) |  Facebook |

Commentaires

felicíssima de te ver de volta!!! voltarei com calma pra ler os posts antigos (da nova fase). eu também mudei muito (e como!). vamos nos reencontramos calmamente. beijo grande.

Écrit par : teresa | 30/10/2008

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