09/10/2006

Nunca somos os mesmos...

A semana passada foi marcada pelo que já é considerado o acidente aéreo mais grave da história da aviação brasileira...basta abrir os jornais, ligar a tv, acessar a internet para ver a avalanche de notícias sobre o assunto...entre as vítimas, foram encontrados 15 goianos...restou à imprensa local (da qual faço parte) a tarefa de mostrar quem eram estas pessoas, na maioria jovens, com um futuro promissor pela frente, interrompido pela tragédia...

Este tipo de reportagem sempre fez parte do dia-a-dia de um repórter/jornalista...não foi a primeira nem será a última vez...mas alguma coisa dentro de mim havia mudado...o habitual sangue frio para fazer a cobertura não estava mais ali...não confundam sangue frio com falta de sensibilidade...mas sempre me orgulhei de saber separar os sentimentos nestas situações e cumprir meu dever de reportar a notícia...e de também saber respeitar a vontade da família que perdeu um ente querido quando não querem falar ou se expor...é uma das coisas mais constrangedoras da profissão e, felizmente, nunca tive problemas com isso...

Mas desta vez foi diferente...nos últimos dias fui obrigada a contatar diversos parentes de vítimas do vôo 1907, da GOL...cada telefonema me fazia tremer de ansiedade, cada conversa com um pai, tio, irmão me embargava a voz...meu maior medo era me deparar com os sentimentos de dor e revolta destas pessoas...vê-las sofrer...pensava que não iria suportar...

Me encarreguei de duas reportagens...a primeira com a família de Tiago, um biomédico de 31 anos, casado há 5 anos e que planejava o primeiro filho para 2007...viajou a trabalho. Era a primeira vez que ia a Manaus e, ironicamente, esta seria sua última viagem no cargo, pois ele iria, enfim, passar para os trabalhos internos, o que tanto queria!

Chegando à casa dos pais fui surpreendida com um clima de muita serenidade...resignação e amor...conversei muito com pai, mãe e irmãs do rapaz...nó na garganta o tempo todo...e, numa das raras vezes em quase 12 anos de jornalismo eu não segurei uma lágrima durante a entrevista...pedi desculpas...e ali, no meio daquela situação desconfortável descobri a razão de tudo: me desabafei com a irmã de Tiago explicando que sabia como ela se sentia, porque eu tb havia perdido um irmão de forma tragédia há dois anos...e acabei sendo consolada por ela,...surreal!

E foi libertador dizer aquilo...Nós, da imprensa, precisamos criar uma couraça para ter força de encarar assuntos trágicos...enquanto aquilo permanece como ‘algo que só acontece com os outros’, ficamos protegidos...mas quando já passamos pela mesma situação, essa isenção desaparece e o trabalho ganha uma carga terrível...

No dia seguinte viajei ao interior do Estado para cobrir o velório de Átila, estudante de medicina de 24 anos, que tb estava no BOEING da GOL...Antecipou a viagem e o início das férias em Goiás por causa das eleições: ele fazia questão de votar!!! Átila iria se casar em dezembro com Flávia...juntos há 6 anos...a moça, muito serena, tb me surpreendeu...o pai foi outro exemplo de força...a única coisa que conseguia pensar era; que bom que encontrei pessoas assim, pois não iria suportar as reações de desespero, dor e revolta que sempre marcam estas ocasiões...

Fiz meu trabalho e voltei para casa, tive até um momento de distração participando de um rally no sábado (é, mas este ano não ganhamos)...e do nada, quando cheguei em casa e me deparei sozinha comigo mesma eu desabei...um típico efeito retardado...passei os últimos dias sem querer me concentrar muito no que estava acontecendo...mas a realidade bate de forma violenta e te nocauteia...

Ainda não consigo explicar a dor e a tristeza que senti...o choro que contive ao longo da semana explodiu...faltou força...o final de semana foi muito difícil...

Ontem foi mais um dia marcado por dor : mãe e filho (ela com 27 anos e o bebê de 3 aninhos) foram sepultados em Goiânia, depois que os corpos chegaram da identificação em Brasília... a lista vai só se estendendo... hoje preciso me preparar para mais um semana que promete ser looonga e pesada...

Perdas alteram nossas vidas, por mais que esta seja a única grande certeza que temos: a morte. Se não tivermos fé o suficiente para acreditar que tudo continua mais tarde, numa outra dimensão, é quase impossível seguir em frente...

Sinto muito pelo texto baixo-astral...estou devendo atualizações sobre as gafes na cobertura das eleições e o tombo do cavalo...o astral vai mudar, certamente!!!

Beijo grande!

15:24 Écrit par Observatoire a dans Général | Lien permanent | Commentaires (7) |  Facebook |

Commentaires

É inevitavel falar sobre tudo isto,MONICA.
Parabens pelo profissionalismo e pelo "humanismo" que,claro,nunca devemos perder. Ainda que os abutres de plantão queiram sempre ver pelo em ovo.
Beijão e uma otima semana.

Écrit par : DO | 09/10/2006

Ah, eu tbém não conseguiria me controlar. Toda vez que leio algo sobre o caso, me dá muita tristeza. Foi horrível o que aconteceu com as pessoas. Crianças no meio dos mortos. Horrível. E um dos comissário, o Rodrigo, ele estava no meu primeiro vôo que fiz na vida, em agosto. Eu não tinha certeza, mas quando vi a foto, desabei. Abs

Écrit par : Maitê | 10/10/2006

Que bom que você desabafou, Monica. É bom pra gente que só sabe falar mal de jornalista, por ignorância e falta de humanidade.

Écrit par : Teresa | 10/10/2006

oi moni, Acabei de ver uma simulação do acidente. O avião foi se desmaterializando no ar!!! Minha nossa. Fico imaginando a agonia dos passageiros...
Olha, toda profissão tem os seus "ossos" e vc está demonstrando que, além de adorar o que faz, faz muito bem feito. Continue assim e quando quiser chorar, faça um buaaaa bem grande mesmo. Deixa as lagrimas saírem, mas tenha certeza, um dia vc vai ver o mano de novo :-)
bj

Écrit par : ana | 11/10/2006

Ces't la vie. Ei moça, as coisas são assim mesmo. Ninguém deveria tentar fingir ser muito mais forte do que não é. Se as vezes a perda de um amor, num namoro, é doloroso. Perder alguém numa tragédia, de repente, com tantos sonhos, é ainda muito pior. É algo que de certa forma permanece dentro de nós para sempre. Força e beijos.

Écrit par : Bia | 11/10/2006

acho acho que nao tenho mais esse sangue frio tambem..sempre trabalhei com materias policias, mortes etc, mas agora nao dar mais...algo mudou em mim....bom vou linkar vc la no cilene.com..se nao quiser avisa..e queria fazer uma pergunta..ainda pensa em voltar pra Belgica? ou ja esta acostumada com o Brasil novamente?

Écrit par : cilene | 12/10/2006

acho acho que nao tenho mais esse sangue frio tambem..sempre trabalhei com materias policias, mortes etc, mas agora nao dar mais...algo mudou em mim....bom vou linkar vc la no cilene.com..se nao quiser avisa..e queria fazer uma pergunta..ainda pensa em voltar pra Belgica? ou ja esta acostumada com o Brasil novamente? o comentario nao saiu..

Écrit par : cilene | 12/10/2006

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